à mim, sua absolvição
resoluta, piedade gélida feito o tempo que anda fazendo lá fora. não é possível
compreender a exatidão de cada gesto que faz, cada ausência e essas longas
pausas perturbadas por um ruído externo, esses almoços em que há apenas o
arranhado dos talheres na louça barata. e quando voltei um dia, já não estava
lá. mesmo que inda ocupasse todos os vazios do quarto-sala-corredor-cozinha.
mas já havia eu sentido sua partida, era tudo uma longa despedida afônica, contornando,
formando, erigindo. pus a chave na fechadura, já sabendo, e girei a porta e me
deparei com o oco, eco do excesso de falta, meus passos reverberando pelas
paredes brancas e desaparecendo à percepção dos tímpanos. apenas eu ali,
esperando alguma verdade absoluta cuja leveza me permitisse permanecer à
deriva.
silêncios i
apenas teus olhos, yafa, apenas teus olhos. me atravessando, como se conhecessem a minha matéria por completo. de dentro pra fora. e eu que olho pra ti, tão incógnita no seu lavar louças feito minha mãe a lavar louças após o jantar de quarta, esfregando as mãos gentis pelos pratos pra tirar os restos e depois ensaboá-los e enxaguá-los, tuas mãos gentis pelos pratos pra tirar os restos e depois ensaboá-los e enxaguá-los. enxaguá-los. a água passando. frente e verso. lavando meu dorso doído, minhas dobras suadas, meus pés sumidos no azulejo branco. afunilando e escoando. feito quando tu foges, yafa, escapas. admirando o deserto lá de fora, sentindo esse vento mareado que espraia da praia pra nos enferrujar. parece que miras o horizonte. e já não estando mais cá. evapora e voa. e voa. além. até depois. querendo sentir com tuas asas. sentir com tuas asas ícaras o ardoso do sol. esquecendo-me aqui. esquecendo-me pra não dizer. pra não dizer. que queres dizer? frente e verso. enxaguando-se enquanto os pratos se limpam. tuas mãos gentis. muda. louça de quarta-feira à noite. eu, fingindo observar as estrelas. estrelas nesse céu nublado. mudo.
by:
João Lucas F.
assunto:
historietas
senta-se no colchão duro e mira as pálpebras cerradas dele
se está aqui ou não, insignificância metafísica
à parte disso, o que carrega consigo é o mesmo: saudade
by:
João Lucas F.
tarde
nossas alminhas estiradas a secar no varal
tomando um bainho de sol
e rodopiando ao sussurro da brisa
por um simplesmente estar
feito vagaroso se deixar no léu
dum céu de banalidades-miçangas
no teu tórax-travesseiro quente
inflando e desinflando pra içar as velas velhas
deitado eu vou conformando nuvens-algodão
me içando no ritmo da tua batida-respiração
enquanto o tempo pinga
pinga e destila
por pingar e destilar...
by:
João Lucas F.
assunto:
poetificado
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