silêncios ii


à mim, sua absolvição resoluta, piedade gélida feito o tempo que anda fazendo lá fora. não é possível compreender a exatidão de cada gesto que faz, cada ausência e essas longas pausas perturbadas por um ruído externo, esses almoços em que há apenas o arranhado dos talheres na louça barata. e quando voltei um dia, já não estava lá. mesmo que inda ocupasse todos os vazios do quarto-sala-corredor-cozinha. mas já havia eu sentido sua partida, era tudo uma longa despedida afônica, contornando, formando, erigindo. pus a chave na fechadura, já sabendo, e girei a porta e me deparei com o oco, eco do excesso de falta, meus passos reverberando pelas paredes brancas e desaparecendo à percepção dos tímpanos. apenas eu ali, esperando alguma verdade absoluta cuja leveza me permitisse permanecer à deriva.