à mim, sua absolvição
resoluta, piedade gélida feito o tempo que anda fazendo lá fora. não é possível
compreender a exatidão de cada gesto que faz, cada ausência e essas longas
pausas perturbadas por um ruído externo, esses almoços em que há apenas o
arranhado dos talheres na louça barata. e quando voltei um dia, já não estava
lá. mesmo que inda ocupasse todos os vazios do quarto-sala-corredor-cozinha.
mas já havia eu sentido sua partida, era tudo uma longa despedida afônica, contornando,
formando, erigindo. pus a chave na fechadura, já sabendo, e girei a porta e me
deparei com o oco, eco do excesso de falta, meus passos reverberando pelas
paredes brancas e desaparecendo à percepção dos tímpanos. apenas eu ali,
esperando alguma verdade absoluta cuja leveza me permitisse permanecer à
deriva.