disseram pra ele, escreveram em seu rosto e tintaram suas pálpebras. não havia tantos floreios. havia apenas... o que havia? exatamente, o que havia? a verdade? ali, tão claramente? não lia, porém. tão perto. tão em si. mas a vista e a angulação das órbitas. não, os olhos não as alcançavam, miravam apenas a paisagem distante, ali onde repousavam as quimeras, esvoaçando em revoar sublime, sem tocar a superfície sólida do mundo, tão leves e inexistentes, efêmeras de se desfazerem assim, com essa brisa fraca e úmida que vem do mar, que vem enferrujar. disseram tanto. disseram tanto que de dentro nem pode entender, mesmo que auscutasse com copos de vidro, a língua soaria estrangeira, alheia, fonemas a se avolumar na incompreensibilidade dos fatos. por favor, me digas. pediria se pudesse. aos transeuntes. vês ali, longe, vês como elas voam, como não há em si quaisquer traços de existência, vivendo tão plenas e divinas, vivendo em mim, aqui e, ao mesmo, tempo tão longe, naquele onírico. e aqueles, os transeuntes, de dentro de si, o olhariam. e eles veriam a uma carcaça magra e fragilizada, uma carcaça raquítica e desolada, cheia de palavras ininteligíveis grafadas em sua casca idosa. a esse apenas ignorariam, a esse apenas teriam medo e asco, presumiriam que veio apenas para lhes assombrar, doer em seus eus de dentro, fazendo-os sangrar secretamente. e o apenas, não apenas um apenas, ali, esperando deles, eles-assombrados, eles-doídos, eles-sangrados, esperando deles algum gesto, gesto que ecoasse por aquele barro oco, gesto que lhe acalentasse, dizendo-lhe com sinceridade e amor que sim, eles podem existir, não é loucura, eles hão de haver, é só esperar, nós também esperamos, e a espera não é em vão, não, não é, logo ela se mostrará justificada, logo tudo fará sentido e nós conheceremos, sim, nós conheceremos o que há pra ser conhecido e estaremos tão plenos e divinos. contudo, não há gesto. só há sua permanente espera e os transeuntes trafegando silenciosamente medrosos e a paisagem tão distante quanto sempre fora.

silêncios ii


à mim, sua absolvição resoluta, piedade gélida feito o tempo que anda fazendo lá fora. não é possível compreender a exatidão de cada gesto que faz, cada ausência e essas longas pausas perturbadas por um ruído externo, esses almoços em que há apenas o arranhado dos talheres na louça barata. e quando voltei um dia, já não estava lá. mesmo que inda ocupasse todos os vazios do quarto-sala-corredor-cozinha. mas já havia eu sentido sua partida, era tudo uma longa despedida afônica, contornando, formando, erigindo. pus a chave na fechadura, já sabendo, e girei a porta e me deparei com o oco, eco do excesso de falta, meus passos reverberando pelas paredes brancas e desaparecendo à percepção dos tímpanos. apenas eu ali, esperando alguma verdade absoluta cuja leveza me permitisse permanecer à deriva.

silêncios i

apenas teus olhos, yafa, apenas teus olhos. me atravessando, como se conhecessem a minha matéria por completo. de dentro pra fora. e eu que olho pra ti, tão incógnita no seu lavar louças feito minha mãe a lavar louças após o jantar de quarta, esfregando as mãos gentis pelos pratos pra tirar os restos e depois ensaboá-los e enxaguá-los, tuas mãos gentis pelos pratos pra tirar os restos e depois ensaboá-los e enxaguá-los. enxaguá-los. a água passando. frente e verso. lavando meu dorso doído, minhas dobras suadas, meus pés sumidos no azulejo branco. afunilando e escoando. feito quando tu foges, yafa, escapas. admirando o deserto lá de fora, sentindo esse vento mareado que espraia da praia pra nos enferrujar. parece que miras o horizonte. e já não estando mais cá. evapora e voa. e voa. além. até depois. querendo sentir com tuas asas. sentir com tuas asas ícaras o ardoso do sol. esquecendo-me aqui. esquecendo-me pra não dizer. pra não dizer. que queres dizer? frente e verso. enxaguando-se enquanto os pratos se limpam. tuas mãos gentis. muda. louça de quarta-feira à noite. eu, fingindo observar as estrelas. estrelas nesse céu nublado. mudo.
senta-se no colchão duro e mira as pálpebras cerradas dele
se está aqui ou não, insignificância metafísica 
à parte disso, o que carrega consigo é o mesmo: saudade